Texto maravilhoso de nossa amiga querida Monica Belloto.

 

“Há algum tempo venho pensando sobre escrever esse TEXTAO, não motivada por fatores externo (ex. mães que me procuram diariamente) mas por toda a experiência que convivi até aqui.

Antes de você ler tudo isso e, talvez, abandonar no meio, se faz necessária algumas explicações introdutórias:

Eu sou a mãe que teve a filha operada aos 7 dias de vida por causa desconhecida, eu sou a mãe que se indignou com a falta de rotulagem adequada no BR, eu sou a mãe que saiu do Brasil para participar do Guidelines (guia de conduta médica) sobre a FPIES, eu sou a mãe que brigou pelo CID (código internacional de doenças) e eu sou a mãe que ainda convive com a FPIES a leite e a Conjuntivite de Repetição pela SOJA, eu sou a mãe que ainda hoje briga, agora sem fazer barulho, por um Centro de Provocação Oral sustentado pelo SUS.

Na minha casa ainda não há a OFERTA de derivados de leite para os outros 3 moradores não alérgicos. Só entra quando precisamos explicar qual o irmão pode e ela pode.

Eu também me indigno com a falta de liberação da ADRENALINA AUTO INJETÁVEL no Brasil, eis que pago uma mini fortuna por ela todos os anos.

Enfim, agora que você já tem um resumo de quem lhe escreve, vamos lá….

A ALERGIA é uma condição ainda desconhecida no Mundo não só no BRASIL. Existem estudos entusiasmados sobre a Microbiota Intestinal e existem estudos que relacionam alguns Espectros Autistas com a Alergia Alimentar, mas na verdade, como disse são só entusiasmados, na real nada há de concreto, portanto, se você se dispuser a colocar seu filho em um ou outro protocolo, por favor, leve em consideração que a população estudada nessas pesquisas são ínfimas, tão ínfimas como a chance de se ganhar na MEGA SENA.

Mas, não é bem isso que eu quero te falar…

Eu quero te falar sobre a postura que temos diante da ALERGIA e como ela se desenvolve mal ou bem diante da nossa conduta.

É muito difícil conviver com o MEDO da morte repentina de um BB de até 1 ano, realmente o medo é paralisante e muitas vezes deixamos a neurose se instalar ao invés de administrar a situação com cautela.

Quando me deparei com os passados 2 anos e 1/2 e vi que a alergia não havia passado, resolvi tomar uma atitude bastante diferenciada das que tomamos com crianças de 2 anos e meio, comecei a empoderar minha filha, talvez, da mesma forma que uma mae de diabético empodera seu filho. Na minha mente, retive o pensamento, essa droga não ía passar e eu não ía usar minha filha de cobaia, também não ía deixá-la se entregar ao coitadismo, comportamento que eu acho o fim, me lembra gente fraca que espera tudo dos outros!

E venho acreditando cada vez mais que as pessoas não tem vontade de aprender que Intolerância a Lactose é diferente de Alergia a Leite. Por que elas são burras? Não, não são, apenas o nível de percepção delas é muito pequeno para esse assunto, elas não convivem com isso. Então, parei de dar murro em ponta de faca. E desisti de explicar, simplesmente desisti pois percebi que eu estava julgando as pessoas da mesma forma quando elas me julgavam como neurótica!

E aí, como eu fiz?

Simples, mostrei a cicatriz da cirurgia (que não é pequena) e disse: Esse dodoi está aí para você se lembrar que o leite de vaca não é seu amigo.

Na sequência, comecei a explicar que na sociedade quase todos os alimentos eram compostos com leite de vaca, bolos, biscoitos, balas, lasanhas, queijos etc…

A do queijo foi hilário, coloquei ela no carrinho de supermercado, entrei na sessão de frios e disse assim: vamos cheirar tudo isso e você me dirá que cheiro tem (lógico, comecei pelo Gorgonzola 😂)

Depois, fui explicando que além de mim e do pai dela, poucas pessoas se preocupariam em fazer comida para ela, não porque essas pessoas fossem egoístas, mas simplesmente porque elas não sabiam cozinhar de maneira diferente, então, toda vez que ela fosse em uma festinha a comida não teria importância e sim o convívio com aquelas pessoas, os abraços e beijos que demos, as garagalhadas gostosas e o tempo que passamos perto de quem a gente gosta.

Expliquei também que não era muito legal dar comidas de presente para pessoas, as pessoas poderiam ficar uma bolota com esse tipo de presente e poderiam ficar muito doentes 😂 Até hoje, a Elis dá flores para todos os amigos e pais de amigos na escola, morro de medo de tomar bronca por isso.

Aqui vai um adendo, quando fui neurótica com a escola a escola pediu para eu retirá-la de lá. Quando joguei na real em outra escola, perguntei: Você acha que dá conta de uma criança alérgica? A escola se superou. Teve uma frase final: “não vamos perder nosso tempo, sinceramente vocês vão conseguir como nós conseguimos em casa, ou não são aptos?

Outra coisa importante, foi ensiná-la a perguntar antes de colocar na boca: Isso tem leite de vaca? Ou seja, quando alguém lhe oferece qualquer comida, adivinha a pergunta que vem na sequência?

Bom, e é assim que estamos convivendo esses 4 anos, o medo não tem moradia aqui em casa, não existe dramas e nem exageros e a coisa é na real, branco no branco e assim, é que a Elis é, ela é na real, tanto é que um dia ela me disse:

Mãe, você cuida tanto de mim, você precisa cuidar de você também!

Sábia criança! Hoje eu cuido de mim, tentando seguir o exemplo de como ela cuida dela!

E o resto? Ela é uma criança de verdade, muito feliz, não é medrosa e faz todos se apaixonarem por ela, pela alergia? Não, nada haver com a alergia, ninguém vive só de comida! 😘

Portanto, escrevi tudo isso, só para te dizer uma coisa, se você recebeu o diagnóstico de alergia e está com medo, fazendo um drama maior que ele é, não faça, não faça, empodere seu filho e reaprenda que as coisas mais gostosas da vida não são feitas de comida, de certo, pode ser que você tenha se esquecido, assim, como eu tinha!”

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